Jornalismo, ativismo e ‘whistle-blowing’ no século XXI

A cristalização da informação como objeto de extremo valor na sociedade contemporânea globalizada está desenhando estruturas de ação e reação aos mecanismos de controle e manipulação da comunicação. Uma inédita cultura de transparência está assentando suas bases, novas formas de ativismo estão concretizando-se.

REYKJAVIK -

‘Whistle-blowing’

Visão clássica

Embora não exista um termo específico para traduzir a natureza da atividade, ‘whistle-blowing’ (que traduzido do inglês, literalmente significa ‘soprar o apito’) classicamente poderia ser caracterizado como a prática de tornar pública aquela informação que se tem acesso por uma posição específica que ocupamos em uma organização, com a finalidade de denunciar infrações, corrupção e abusos dentro do quadro de atividades da mesma.

Um ‘whistleblower’ (literalmente ,‘aquele que sopra o apito’) seria a pessoa ou organização que em posse de informação interna que comprove uma infração, fornece a mesma para uma organização ou entidade competente para que esta possa tomar uma atitude sobre o caso. Devido à falta de confiança em instituições governamentais – pois muitas vezes a infração a ser reportada é advinda de uma entidade do próprio governo local -, whistleblowers, (denunciadores), freqüentemente escolhem uma organização de mídia para tornar o caso público.

Ao largo da história moderna e contemporânea, muitas agremiações militando por transparência e organizações progressistas de mídia têm aberto suas portas para receber denúncias a fim de reportar ao público casos que comprovem crimes e corrupção.

Uma nova cultura denunciativa

Existem dois exemplos claros de whistle-blowing, práticas denunciativas, que marcam uma mudança bastante recente nas dinâmicas e objetivos da delação e que empiricamente demonstram que o ato de soprar o apito, que denunciar, vem fugindo de uma natureza intrinsecamente incriminatória ou queixosa.

Vejamos o caso do Wikileaks, organização midiática que tornou pública informação interna de, entre outros, entidades governamentais dos Estados Unidos. A publicação do Cablegate, cerca de 250 mil telegramas confidenciais do Departamento de Estado dos Estados Unidos – ocorrência que celebrizou a organização -, confirmou casos de corrupção em distintos governos e regiões do mundo, mas possivelmente seu valor não deveu-se inteiramente, ou sequer principalmente, a isto.

Na verdade, pouquíssimos, ou quase nenhum, caso de corrupção revelado durante o Cablegate surtiu repercussões legais para os atores destes abusos e crimes. O valoroso nesta publicação foi o efeito de conscientização das informações reveladas, foi a difusão da estrutura de governos e empresas, quando o público pôde entender as dinâmicas de estados e corporações e como se relacionam.

Um dos últimos releases do Wikileaks demonstra a mesma natureza. Trata-se dos Arquivos da Inteligência Global (Global Intelligence Files), cerca de 3,5 milhões de e-mails da empresa de inteligência estado-unidense Stratfor (uma das maiores e mais influentes do mundo) que gradualmente estão sendo publicados pela organização. Muito mais que comprovar infrações, estes documentos servem de denúncia de uma estrutura de relações e logísticas de uma certa corporação. Neste caso, uma empresa de grande interesse público, a qual movimenta grande fluxo econômico e interfere em políticas globais. Um recente exemplo foi o escândalo do Trapwire, um esquema internacional de vigilância de ativistas, revelado através destes e-mails vazados provenientes da Stratfor. Não houve crime, mas o público pode inteirar-se de dinâmicas que interferem diretamente em sua vida.

Dia-hacker da transparência em São Paulo. Por Alexandre Fugita. 2009.

O segundo exemplo são os novos ativistas da Internet que, entre outras atividades, colocam em domínio público distintos tipos de informação interna dos meios governamental e público. São dois os tipos de informação interna focados por ativistas. No primeiro caso tornam pública, sob domínio público, informação baixo direitos autorais, como códigos fonte de programas e conteúdo audiovisual. Exemplo é o coletivo The Pirate Bay, que revolucionou as ferramentas de transmissão massiva de arquivos na Internet.

O coletivo de ativistas Anonymous, além de tornar pública informação que possui direitos de autor, também difunde informação de governos e empresas que não necessariamente denunciam nenhuma irregularidade, mas que revelam a estrutura organizacional  de instituições – como bases de dados de logística e pessoal, estatísticas e relatórios internos etc. Ainda usando o Wikileaks como exemplo, suas dois últimas grandes séries de publicações (os e-mails da Stratfor e os e-mails do governo sírio) vieram de arquivos hackeados por membros do Anonymous, segundo vozes de relevância do próprio coletivo.

Também mudaram os meios de acesso à informação interna. Se classicamente se chegava a estes dados devido a um cargo oficialmente exercido em uma organização, atualmente especialistas em redes de computador invadem redes e sistemas para ter acesso a estes dados com o único intuito de fazê-los públicos. Redes de governmos e corporações sempre foram alvo de ataques, mas até recentemente estas invasões eram patrocinadas exclusivamente por estados e empresas com a finalidade de espionagem. A diferença é que, no momento atual, os hackers e geeks, capazes de entrar sem autorização em sistemas, passaram a revelar as informações hackeadas de maneira totalmente pública, grátis e livre.

Estas invasões, embora oficialmente ilegais, são respaldadas pelos ativistas da Internet por fortes convicções morais e políticas: cultura e informação de interesse público devem ser livres.

Whistle-blowing e cultura livre
Poster do coletivo Anonymous.

Poster do coletivo Anonymous.

Os exemplos tratados mostram que o movimento de soprar o apito, de originalmente denunciar,  vem se aproximando da prática de desvelar, tornar público simplesmente. Segundo um membro do núcleo do coletivo Par:Anoia  (a iniciativa de whistle-blowing do Anonymous, a qual recentemente ganhou destaque por divulgar arquivos do governo australiano e da Innodata, uma empresa de inteligência empresarial bastante influente na Ásia) com  quem falei,

“Estamos aqui para defender o fluxo livre de informação, defender a liberdade de expressão e trazer corrupção à luz”.

À parte da tradicional causa de tornar públicos atos corrupção, o coletivo adiciona mais duas: a informação como bem livre e a liberdade de fornecê-la. O mesmo anônimo adiciona:

“Cada bit de informação que notarmos estar censurado, iremos trazer on-line, sem censura”.

Nas políticas morais de Wikileaks, consta que a organização “irá aceitar material restrito ou censurado de relevância política, ética, diplomática ou histórica”.

Apesar de, como aponta um membro, esta declaração não poder representar a visão do coletivo como um todo, conversando com participantes do The Pirate Bay, um deles me disse sobre o coletivo:

“Para começar, toda informação deve ser livre (…) a mesma filosofia aparece on-line com FSF/GNU e Wikileaks (…) é para o bem da humanidade”.

Ele adiciona:

“nós ajudamos whistleblowers permitindo livre troca de informação (…) de maneira que estes dados não podem sair do ar nunca mais”.

O Pirate Bay (literalmente, a Baía Pirata), é atualmente considerado o maior facilitador de download do mundo. A comunidade de internautas que mantém a maior database de informação livre (baseada em torrents) já conhecida até os dias atuais, é respaldada por um coletivo de hackers – originalmente suecos. Membros do coletivo enfrentam diversas batalhas legais, acusados de promover o download ilegal na Internet.

Estes casos nos fazem notar como os principais movimentos de liberdade de informação da atualidade, a nível global, encontram-se no que concerne tornar e manter pública aquela informação originalmente restrita, mas que é de interesse da sociedade como um todo.

Não é que o caráter tradicional de soprar o apito se perdeu, mas a ele novos foram adicionados por conseqüências históricas. O abuso das leis de direitos autorais (copyright) e da cultura do segredo por parte de governos e corporações gerou na consciência globalizada o entendimento de que a censura, a restrição, o secreto, a conspiração… São uma infração, um crime, uma corrupção contra as pessoas.

Ao considerar informação que é de interesse público, mas que é mantida em segredo como algo danoso à sociedade, advém a nova cultura de transparência. A característica intrínseca do whistle-blowing permanece, tornar informação restringida um bem público.

Jornalismo pirata

Desenvolvendo sobre esta concepção da natureza do whistle-blowing como a luta pela geração de consciência e melhor entendimento das dinâmicas sociais ao tornar informação interna acessível publicamente (seja esta informação uma denúncia de uma infração ou qualquer outro material de interesse público) devemos agora considerar a ponte que conecta dados e notícias.

Quando se trata do efeito que o whistle-blowing causa na opinião e atenção públicas, surge a questão sobre o nível de acesso e assimilação da informação revelada por parte do próprio público. Materiais vazados, leaks, documentos confidenciais, devem passar por um longo processo de maturação até poderem ser assimilados por uma população. Sendo o leak um documento confidencial em-estado-bruto – e em alguns casos meros fragmentos dentro de uma quantidade enorme de lixo ou simplesmente matéria sem-interesse -, existe uma lacuna significante entre as pessoas e os vazamentos em si.

O público tem acesso a notícias e estas notícias são responsáveis pela formação da imagem e representação da sociedade e do mundo dentro de um cenário cultural, notícias e conscientização estão diretamente conectados. Para que vazamentos se tornem notícias, um árduo trabalho de moldagem – desde o material bruto até reportagens – é essencial, pois o acesso a uma dada informação é modulado pelo entendimento a familiaridade com seu discurso, com a maneira em que é apresentada.

Sem o jornalismo, o processo de trazer informação secreta ao meio público não está completo, visto que apesar do dado estar virtualmente acessível, permanece escondido da população, inalcançável, esquecido.

Ao transformar um vazamento, um leak, em uma narrativa entendível e objetiva, jornalistas devem executar certo número de tarefas. Entre elas, a busca incansável em meio a montanhas de arquivos, com o fim de trazer à luz informação relevante ao contexto local onde focam suas atividades jornalísticas. Depois, devem unir fragmento como em um quebra-cabeça, sintetisando uma investigação e finalmente esculpindo uma peça jornalística. Tudo isso, sempre atentos a extremas precauções de comportamento e logística técnica ao relacionar-se com fontes ou com o próprio material a ser analisado.

O jornalista pirata é a única pessoa indevida a ter acesso a um certo arquivo de dados, mergulha no mesmo até extrair histórias – outra vez – indevidas. Por um lado, há um paralelo com data-jornalismo, onde bancos de dados são analisados e filtrados com o fim de produzir peças de jornalismo. Mas neste caso, enquanto o data-jornalismo se baseia em bancos de dados abertos, o jornalismo pirata trata exclusivamente de informação confidencial. Por outro lado, algumas destas análises se encaixam como um tipo de jornalismo investigativo, pois são focadas em revelar corrupção, esquemas, infrações e violações.

Mas ou o jornalismo pirata transcende o jornalismo investigativo, ou acabou gerando uma nova forma de o praticar. Pois a investigação, nestes casos, muitas vezes não traz à tona nenhuma irregularidade, mas é muito mais uma ferramenta adicional no processo de transparência. Não se desmascara um crime, mas a estrutura das instituições, seus jogos às escuras, seus canais por debaixo do pano.

Como exemplo, vejamos o artigo Brasil teme terror na Rio-2016, dizem EUA de Fernando Rodrigues, publicado como manchete n’A Folha em Dezembro de 2010, o qual Natália Viana cita no início de sua peça sobre a revitalização da mídia no Brasil. Não há denúncia de nenhuma irregularidade na matéria de Fernando, baseada em um documento confidencial publicado pelo Wikileaks. Como escreve o jornalista, o documento da embaixada estado-unidense no Brasil “relata a seus superiores as oportunidades comerciais e de aproximação estratégica com o Brasil durante eventos esportivos globais, como a Copa de 2014 e a Olimpíada”. Nenhuma irregularidade, porém informação de interesse público e que, portanto, deve ser de domínio público segundo esta nova cultura de transparência que surge em nível global. Aí o jornalista pirata para realizar esta conexão entre relevância e acessibilidade.

Raramente esta prática não é guiada também por fortes convicções morais e políticas, pois as recompensas pessoais são pouquíssimas e os problemas trazidos são muitos. Em todos os sentidos, é um tipo de ativismo de mídia. A vontade de gerar consciência social vem do desejo de alterar o status-quo e igualar o direito à informação em um dado ambiente cultural.

Natália Viana e Julian Assange na Inglaterra, pouco antes do Cablegate. Por APublica.org. 2010.

O trabalho de jornalistas nas dinâmicas do whistle-blowing não deveriam ser ignorados ou menosprezados. A jornalista brasileira Natália Viana, contando sobre o tempo em que analisava os documentos do serviço diplomático dos Estados Unidos, obtidos pela organização Wikileaks, escreveu:

“Trabalhei sozinha, sem dormir, em um pequeno apartamento no centro de São Paulo, tentando manter o ritmo de reportagem e escrita. Em quatro meses, eu publicaria não menos de oitenta artigos.”*1

Fora o sacrifício físico e mental que estes jornalistas passam para manter um ritmo atualizado de publicação de conteúdo relevante – claro no depoimento de Natália – o contato com material vazado pode apresentar riscos legais ou até mesmo perseguições políticas que podem comprometer a integridade destas profissionais de mídia, ocorrência clara no caso de Julian Assange.

Até o presente momento, Natália é, de longe, o maior expoente do jornalismo pirata brasileiro. A mais importante analista de leaks lusófona. Aqui uma detalhada descrição de como a jornalista se involucrou nesta atividade. Em outro artigo,  segundo ela:

“(…) o ‘Cablegate’ brasileiro teria um impacto significante na profissão jornalística, fortalecendo a cultura de transparência no exato momento em que o país começava a revisitar a herança da ditadura militar de 1964-65″.*2

Jornalistas piratas não quebram redes de computador ou publicam informação interna a qual têm acesso de maneira natural, mas é a reputação ao lidar com tal tipo de informação de maneira correta e séria o que irá influenciar a possibilidade de acesso aos leaks, documentos confidenciais. Outra vez, é um trabalho para o bem comunitário, uma tarefa muitas vezes em detrimento da vida pessoal para o privilégio da sociedade.

A característica mais básica do whistle-blowing é tornar informação restringida em um estado de acesso público. No entanto, delegar informação interna para uma autoridade ou organização não é uma garantia de que esta informação irá atingir verdadeiramente o espectro de atenção da população.  Há um próximo passo essencial neste processo, a conexão da informação interna bruta com as pessoas, de maneira imparcial.

Assim como os whistleblowers, os denunciantes, estes jornalistas devem estar verdadeiramente engajados na causa da transparência. Ambos são elos da mesma corrente, pertencendo ao mesmo ciclo de soprar o apito, mas em diferente compasso.

*1 – Tradução minha, original em inglês.
*2 – Idem, original em castelhano.
Foto: Qiqi Green Whistle. Por stevendapolo. 2009.

Short URL: http://whistle.is/?p=390

Posted by on Aug 29 2012. Filed under Português. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response or trackback to this entry

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